quinta-feira, 4 de abril de 2013

"Salve Jorge" já deu o que tinha que dar



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por Anna Ramalho
anna-ramalho-jornalista



Gosto da Glória Perez como pessoa: ela é simpática, zero de estrelismo, amiga dos amigos, inteligente, enfim, tem uma série de qualidades que admiro. Sofreu a dor que ninguém merece sofrer quando perdeu, daquela forma tão cruel e covarde, sua jovem e bonita filha Daniella – que era uma bailarina maravilhosa e estava caminhando bem na carreira de atriz. Trapaças do destino, rasteira sem tamanho, a vida real  parecendo de repente uma trágica novela das nove.
Glória Perez

Suas tramas  são sempre meio delirantes, com aquele vaivém que pode ser Rio-Marrakesh, Rio-Nova Delhi, Rio qualquer lugar excêntrico e remoto mundo afora, de preferência com uma cultura bem diferenciada. Tem também o onipresente salão da gafieira, onde patrões, empregados, bandidos e mocinhos sempre evoluem ao som da voz de Alcione. Um drama fora do comum também é de lei, bem como as idas e vindas dos mocinhos da hora. É a receita dela, como filosofar e arrastar capítulos é o barato do Manoel Carlos e viver na rede a dar pitacos venenosos sobre os colegas é o que encanta o Aguinaldo Silva. Questão de estilo. Marketing. Cada um com seu cada qual.
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Agora, em “Salve Jorge”, com todo o respeito pelo trabalho de um autor de novelas ( que não é mole, não é bolinho!), a Glória perdeu a mão. De tão inverossímil, o que deveria arrancar lágrimas na história me fez gargalhar – eu e a minha atenta turma do Facebook. Na noite desta terça-feira, quando Morena reencontrou o Theo, mais de 200 posts apenas durante o horário da novela. A cena do reencontro foi uma piada verdadeira. Porque só  pode ser piada a heroína largar o filho recém-nascido que ainda mama no peito em casa, se mandar da zona sul para a Penha, ali no sovaco do Morro do Alemão, e encontrar o grande amor numa igreja – como se igreja católica ficasse aberta em plantão permanente. Kakakakaakkaakkaakkakaaka! Naquela hora até o furioso dragão de São Jorge dorme a sono solto.  Na cena seguinte, os dois se amassam pelas ruas sem bandidos (vai ver é o Éden e a gente não sabe) e acabam num motel, cujo quarto é iluminado por velas em profusão. O que me faz pensar que, das duas, uma: ou o casalzinho aproveitou um daqueles apagões que já estão virando  rotina na cidade ou a direção da novela errou feio. O décor estava mais para alcova de Maria Antonieta em Versailles  - antes da guilhotina, bien sûr.
Morena e Theo se amassam na Penha

A novela, que até melhorou em comparação ao seu desastroso início, pegou no tapa. A Globo, tal qual aquele general da ditadura, fez a gente engolir “Salve Jorge” usando daquela artilharia pesada tipo terra, mar e ar. Com o coronel Nunes no comando, claro. Se o leitor pega o jornal pra ler, encontra a Morena em todas as colunas e em várias reportagens, afinal  a emissora tem que empurrar a  fraquíssima Nanda Costa goela abaixo dos seus zilhões de telespectadores.  Se  o indigitado liga em qualquer programa da emissora, do “Fantástico” à “Santa Missa em seu Lar”, a moça tá lá. Ou o Theo. Ou a Erica. Ou a lamentável Lívia Marini da Claudia Raia, uma vilã pra matar a gente de rir com aquelas seringadas fatais e as muitas caras e bocas. Abriu  qualquer site da global empresa? É “Salve Jorge”, é Morena, é surra anunciada. Afinal, o povão - eles aprenderam com os índices do ibope - se amarra numa pancadaria. Briga de mulher com mulher, então, é um sucesso que alavanca qualquer audiência. E tome porrada!!!! Ninguém apanhou mais do que a vilã Wanda, vivida com brilho e garra por Totia Meirelles. Aliás, Totia e aquela gracinha da Giovanna Antonelli literalmente salvam o Jorge do desastre total, né, não?
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Como sou audiência inercial, não perco uma novela da Globo. Algumas valem demais a pena, como foi o caso da irretocável “Avenida Brasil “ e as saudosas “Vale Tudo”,  “Belissima”, “Senhora do Destino”,” Laços de Família” e tantas outras da safra mais contemporânea, digamos assim.  Apesar de ser apenas uma reles  espectadora, sempre tive o maior orgulho da qualidade das produções da Globo – na sua maioria impecáveis, tanto nas escalações de autores , atores e diretores, quanto na parte técnica, que reúne um time de feras impressionante. É por isso que estou triste  com “Salve Jorge”. Desperdício de talentos.  Tomara que acabe logo – e que a Glória possa voltar, quando chegar a hora, com um sucesso tão grande quanto foi “Caminho das Indias”, esta, sim, uma bela novela que deixou saudade.
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Enquanto isso, quem não viu não perca “Downton Abbey”, o seriado inglês que é febre no mundo e que o GNT voltou a apresentar, depois de ter deixado a turma não mão,  ano passado, numa imperdoável desconsideração com o freguês. Já vi tudo, as três temporadas. É bárbaro!!!!  E fiquei felicíssima quando soube que tão cedo não acabará: o autor, Julian Fellowes, recebeu um telefonema da Casa Branca, em fevereiro,  logo depois da segunda posse do Obama. O primeiro casal da maior potência do mundo pedia encarecidamente pelo menos mais uma temporada da série. Foi atendido. Oba!!!! God save Obama - and the Queen.
A turma chiquérrima de Downton Abbey


Anna Ramalho é colunista do Jornal do Brasil, criadora e editora do sitewww.annaramalho.com.br e cronista sempre que pode.
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