quinta-feira, 18 de abril de 2013








Por Marcelo Braga



Anfitrião Rico e Anfitrião Pobre


Como festeiro de profissão e vocação observo discretamente tudo ao meu redor quando chego numa festa. Observo pessoas, detalhes, roupas, decoração, animação e mais o que me chamar à atenção (aviso que a rima não foi combinada, foi sorte de principiante !).
A conclusão que chego e muitos já sabem disso é que pobre se diverte incomparavelmente mais que o rico.
Festa de rico é planejada com meses de antecedência, tem que agendar com o decorador, equipe renomada de Buffet e assessora de imprensa que sempre tem suas agendas atribuladas. Fazer lista de convidados e ver se todos os Vips estão disponíveis e peneirar os globais que estão na novela de horário nobre. Os atores que estão em papéis secundários ou nas outras emissoras passarão pelo crivo ainda, isso claro de olho nas notas na mídia que vão render e matérias intermináveis naquelas revistas extremamente CARAS que tem ilha e castelo. QUEM ? VEJA se CONTIGO essas coisas acontecem !        




Festa de pobre é planejada com... 3 horas de antecedência, ligam pros amigos de mesma operadora de celular pra usar os bônus, deixam recado no Orkut (???), Facebook e claro toda a vizinhança é convidada, essa é a assessoria de imprensa mais rápida. O grupo musical que está começando é convidado a dar uma palhinha, o DJ que namora a prima da dona da casa também garante a diversão. Cada convidado leva uma coisa pra comer e a bebida é dividida por todo grupo. Decorador? Tudo muito prático com as coisas colocadas numa mesa grande pra quem quiser se servir a vontade. A mídia serão todas as fotos tiradas pelo celular e postadas nas redes sociais incansavelmente pra mostrar pra quem não foi que a festa bombou !
Acho que independente do anfitrião ser rico ou pobre, a forma de receber é o que cativa e faz o convidado se sentir à vontade. Tem pessoas que são Hostess natas e tem a capacidade de misturar convidados das mais  diferentes escalas sociais e tornar a noite animada e inesquecível.

Conheci 2 grandes anfitriãs: Dona Zica da Mangueira e a escritora Rachel de Queiroz.  
Na casa da Dona Zica, todos eram muito bem recebidos, amigos, conhecidos ou estranhos, sempre aparecia a dona da casa preocupada se o convidado (ou penetra) estava à vontade, bem servido, se estava tudo bem. E as feijoadas? Era pra comer rezando, com medo do ponteiro da balança não mexer muito, porque o REPETECO da refeição era mais que certo, tudo regado a samba de primeiríssima, era comum num sábado desses encontrar Nelson Sargento, Delegado, Beth Carvalho, Almir Guineto, Dicró, Leci Brandão e os meninos que estavam iniciando carreira como integrantes do Grupo Revelação, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Sombrinha e Ivo Meirelles com seus cabelos descoloridos fazendo Funk in lata já. Isso varava a madrugada, e claro todos seguiam pra quadra da Mangueira e voltavam pro café da manhã na casa da Dona ZIca na maior animação.
Quanto à escritora Raquel de Queiroz a conheci através de sua sobrinha Letícia, e me encantei, adorava contar histórias da sua vida no interior, passávamos horas jogando sueca, truco e conversando regado a licores, doces maravilhosos e almoços espetaculares, TUDO da nossa fantástica culinária brasileira, e toda hora pausa pra telefone, fax (sim sou anterior ao e-mail confesso), cartas e telegramas (ui peguei pesado agora), horas marcadas com jornalistas para entrevistas e todos passavam a amá-la depois que a conheciam e o apartamento gigantesco com móveis numa mistura harmoniosa entre o clássico e o moderno, de grife e catalogados, e ela de uma simplicidade fantástica, sem deslumbramentos, pois se eu morasse num edifício com meu nome acho que ficaria na frente dele, com uma placa luminosa escrita: ESSE CARA SOU EU!

As festas na casa da Dona Raquel eram bem menores, poucos convidados, todos chegavam meio engessados, pois afinal estavam diante de uma imortal da ABL, mas acredito que em 10 minutos já estavam completamente envolvidos pela sua simpatia. Repito: a comida era tão boa, que ela sabendo disso, mandava Mariângela (sua fiel cozinheira) preparar as quentinhas que os amigos levavam sem pestanejar.
E me veio agora uma história de um amigo decorador badalado da alta sociedade paulistana, que é mais conveniente não falar o nome verdadeiro do rapaz que hoje é referência na área, mas o chamaremos de Senhor P. Essa história é tão boa que a Claudia Matarazzo já o citou em um de seus livros, mas vale à pena reviver aqui.
O Senhor P já possuía uma clientela seleta e de altíssimo poder aquisitivo e sempre fazia jantares maravilhosos em seu apartamento enorme e de bom gosto excepcional, eram sempre grupos pequenos e de PESO financeiro.
Num desses jantares glamourosos, no qual o cardápio era comida mineira (mas não a comida do dia a dia, era a alta gastronomia mineira), quando chega à hora das sobremesas, todas colocadas em belíssimas compoteiras de cristal, os convidados encantados com o sabor, perguntam de onde são os doces e o Senhor P inspiradíssimo levanta-se e começa seu show: “Esses doces são da minha querida Tia Ritinha, que mora em Minas e todos os meses me manda por um portador, grandes essas delícias pra eu recordar da minha infância. Talvez o que vocês estão tendo a honra de degustar seja a última remessa da minha Tia que na última carta disse estar bem adoentada e não agüenta mais ficar horas mexendo os tachos pesadíssimos de cobre.”
Os convidados sentiram um misto de inferioridade por suas vidas na maioria vazias e de exclusividade por terem sido escolhidos pelo dedo de Deus para participarem daquele momento único. Na hora de irem embora, o copeiro informou ao grupo que o elevador social estava com defeito e todos deveriam usar o elevador de serviço. A grande surpresa do grupo foi que ao abrirem a porta da cozinha encontraram ao lado do elevador latas cuidadosamente empilhadas da antiga marca CICA onde uma convidada revoltada não se conteve e desabafou pro Senhor P: ”Puxa querido, nem se preocupe com a doença da sua Tia Ritinha, se você quiser, indico vários supermercados que também vendem TIA RITINHA!!!”  



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