sábado, 30 de março de 2013

O Brasil desaba. Nasce uma escritora


O Brasil desaba. Nasce uma escritora

E-mailImprimir




Vamos lá: o Engenhão foi interditado porque era uma ameaça aos seus frequentadores com seus problemas estruturais no teto; os prédios levantados para abrigar as vítimas do Morro do Bumba começaram a rachar e serão demolidos.  O primeiro é da alçada da prefeitura do Rio de Janeiro; o outro, do governo federal – mais especificamente do programa Minha Casa Minha Vida.  Ou seria Minha Casa Minha Morte? As imensas torcidas dos clubes de futebol do Rio estão sem teto. Uma pena. Agora, 450 famílias, já tão maltratadas com a perda de suas casas em 2010, continuarem ao relento, em 2013,  por incompetência dos construtores e incúria do poder público, já está no território do deboche e do  escárnio.
Fosse o Brasil um país sério, os responsáveis pela construção tanto do Engenhão quanto dos conjuntos Zilda Arns ( ela não merecia uma homenagem dessas!) estariam no xilindró, que é lugar de quem pratica malfeitos dessa categoria. Como não é, a vida segue risonha para a canalhada de sempre, e quem está por baixo – em todos os sentidos – que se conforme e se dane. Essa história do Morro do Bumba não me desce. É inacreditável que o poder público consiga semelhante feito enquanto nossa presidenta segue em campanha país afora, acenando com promessas demagógicas, que, aliás,  tendem a rachar, deslizar e se esborrachar tal qual os prédios do Morro do Bumba.  No Brasil, não há promessa que funcione. Muito menos se feita pelos dignitários da vez. Taí a conta de luz que não me deixa mentir.
Aqui no Rio, nosso prefeito – rapaz simpático, bem intencionado – interdita o Engenhão, mas não interdita o Elevado do Joá, que é um risco de consequências inimagináveis em termos de tragédia urbana. É complicado? Claro que é. Vai dar nó na cidade? Claro que vai, mas a cidade já virou um nó faz tempo, e, organizando a bagunça, tem jeito pra tudo.  O Rio não esquece  o desabamento do viaduto da Paulo de Frontin, em 1971, quando o prefeito  tinha apenas dois aninhos. Morro de medo só de pensar nisso, me benzo e rezo sem parar todas as vezes que tenho que passar por ali, coisa que meu filho faz diariamente, vindo da Barra para a Zona Sul.  O prefeito, como mora na bucólica Gávea Pequena, pode fazer o trajeto alternativo e não precisa do Elevado do Joá. Está, portanto, a salvo da sensação horrorosa de pânico que assalta seus  milhares de usuários. Vamos combinar que  Deus é brasileiro,  mas seus filhos têm que dar uma ajudinha.   Paes agiu corretamente interditando o Engenhão. Tomara que pense em fazer o mesmo com o Elevado do Joá. Não dá para brincar com a vida dos cidadãos.
***
Mudando o rumo da prosa para assuntos mais amenos. Li, com imenso prazer, interesse e admiração, o romance de estreia da jornalista Maria Christina Monteiro de Castro, “Por enquanto agora”.  Com fortes pinceladas autobiográficas, a autora  - que estreia nas letras aos 70 anos – traça um painel fiel, comovente, amoroso, nostálgico, por vezes muito triste, mas sempre muito verdadeiro,  do século XX - mais especificamente,  do pós-guerra para cá. A história de quatro irmãs, suas vidas, seus destinos, seus agoras.
Conheci Maria Christina nas redações da vida, quando ela por muitos anos desempenhou com categoria e classe a função de assessora de imprensa, ao lado de Beth Camarão, outra querida amiga. Sempre foi uma profissional competente e uma pessoa gentil, preparada, pertinente – qualidades essenciais a quem pretenda exercer esta função. Fiquei feliz em descobrir no seu romance, não apenas essas qualidades, como a real vocação de escritora, que usa o idioma lindamente ( nesses tempos de” impocibilidade” e “impeçilho”, como revelam as provas do famigerado Enem) e enriquece o texto com sua cultura geral, ainda que em nenhum momento soe pernóstica. Vida longa a essa nova romancista que chega para ficar. Um alento nesse país que teima em me desanimar.

Anna Ramalho é colunista do Jornal do Brasil, criadora e editora do sitewww.annaramalho.com.br e cronista sempre que pode.
Postar um comentário