sábado, 23 de março de 2013

Aquarelas do Brasil vão desbotar sem o Emílio


Aquarelas do Brasil vão desbotar sem o Emílio

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Esse Brasil desanima. Sinceramente. Elegeram esse idiota neopentecostal para presidir a Comissão de Direitos Humanos do Congresso e agora não há quem tire. E, o pior, a imprensa ainda cede manchetes para ele divulgar suas sandices. Ontem li uma imbecilidade de sua lavra que, estivesse eu em Brasília, acho que chamava o infeliz pra porrada: “quando você estimula a mulher a ter os direitos dos homens, sua parcela como mãe começa a ficar anulada.” Meu Deus, quanta bobagem!!!! Minha parcela mãe tem uma vontade enorme de virar esse sujeito de bumbum pra cima e tascar palmada nele.  Que país é esse que elege um estrupício deste quilate para seu Congresso???
O mesmo que dá maioria absoluta à presidente, promovida a mãe dos pobres a partir de seus últimos atos e “bolsas”: bolsa-batom, bolsa-cesta básica, bolsa-papel higiênico. Aliás, haja papel higiênico, né, não?  Um produto que não pode faltar na casa dos brasileiros – do mais pobre ao mais rico. É essencial nos sentidos lato e figurado.
Essa vilegiatura de Dona Dilma em Roma foi de lascar e deu muito o que falar – no mundo e mais especificamente nas redes sociais. Enquanto o Papa Francisco prega a simplicidade, a pobreza, nossa delegação – e que delegação! -  se hospeda no mais caro hotel de Roma, desprezando as três representações que temos na Cidade Eterna: o belíssimo Palazzo Pamphilli e as embaixadas do Vaticano e da FAO. Um belo fim de semana para a turma, numa das mais bonitas e badalativas capitais da Europa, às custas dos pobres mortais, aqui, aqueles que a cada dia vêem o fim do mês chegar mais cedo, aqueles que estão sufocados pela inflação que não respeita nem a nova cesta básica, desonerada pela presidenta há pouquíssimos dias e já novamente pela hora da morte. Esse Brasil desanima. Os que pensam são esmagados pelos pobres iludidos com o discurso populista, que faz  subir loucamente os índices de popularidade da herdeira de Lula.
Dona Dilma chega a Roma para ver o Papa

Vibro com o novo Papa – um consolo no meio de tanta incerteza -  e leio a receita de miojo na prova do Enem. Isso aqui não é país, é piada pronta. Dá um desânimo! Rezo por um milagre. Se houve um, no Vaticano, tenho fé que haverá um aqui também.
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Não perdia o programa A Grande Chance, do saudoso Flávio Cavalcanti, e acompanhei  todas as etapas que culminaram com vitória estrondosa de Emílio Santiago naquele encontro de calouros. De lá para cá, não apenas acompanhei a carreira de um dos maiores cantores do Brasil, como virei sua amiga. Amiga e tiete. Só perdia em tietagem para minha querida amiga portuguesa, a jornalista Maria Guadalupe de Carvalho, oitenta e tal primaveras, que sempre reclamava comigo pela pouca divulgação que o cantor tinha na terrinha. Hoje, conversando com o filho dela, o Gonçalo, grande amigo do Emílio, fiquei sabendo que o estouro por lá realmente não aconteceu como deveria. Ele cantou uma vez apenas no Cassino de Póvoa, no Porto,  há coisa de quatro anos. Os portugueses, que amam tanto nossos artistas ( já vi o Coliseo, a maior casa de shows de Lisboa, vir abaixo por Maria Bethânia), não sabem o que perderam.  Faço coro com outra diva , minha querida Nana Caymmi, que ontem chorava a perda da mais bela voz do Brasil.
Choro a perda da voz e choro a perda do amigo. Gentil, caloroso, sempre sorridente, bom de papo, a cada vez que nos encontrávamos ele evocava antiga promessa: “Cadê aquela festa que você vai dar no seu aniversário?  Quero cantar pra você!”. Querido Emílio, quem sou eu para merecer tamanha honra, respondi e respondo. E  choro já a sua falta, guardando um único consolo: pelo que soube via Gonçalo, que lhe acompanhou nos momentos finais, os médicos já haviam alertado para as sequelas que seriam inevitáveis. Melhor morrer cedo do que morrer vivo por não poder mais cantar. Descansa em paz, meu amigo. Arrasa aí por cima, onde a plateia está a cada dia mais seleta.
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No cantinho musical, a lembrança para sempre de sua voz de veludo, seu balanço inigualável – e um pedaço de Saigon.


Anna Ramalho é colunista do Jornal do Brasil, criadora e editora do site www.annaramalho.com.br e cronista sempre que pode.
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