domingo, 9 de junho de 2013

Scarlet Moon: a Lua ganhou a sua Estrela


por Anna Ramalho
anna-ramalho-jornalista


O  Dia das Mães estava chegando e eu pensava no que fazer para homenageá-las na cybercoluna – ou melhor, quais seriam as mães que escolheria este ano para a página de fotos. Queria que fossem diversas em seus tipos : anciãs, coroas como eu, quarentonas, jovens, mães de primeira viagem, mães-avós e por aí afora. Desde o primeiro momento, uma se impôs: Scarlet Moon de Chevalier. Esta não poderia faltar. Esta foi a capa do site, cercada pelos três filhos: Gabriela, Theodora e meu amado Christovam, filho profissional, meu interino no “Jornal do Brasil” por mais de cinco anos. Menino de ouro. Meninas de ouro. Obras da Scarlet.
A foto que publiquei no último Dia das Mães:
Scarlet com os filhos Gabriela, Christovam e Theodora (Foto de Ana Colla)
Escolher a Scarlet justo este ano foi  uma espécie de premonição que tive, eu que não sou muito dessas coisas. Há sete anos acompanhando o triste desenrolar da doença da amiga - não tão de perto porque a imensidão de seu sofrimento me entristecia, me acovardava – pressenti que o desenlace estava por pouco.  Conversei muito com o Chris no dia em que pedi que me enviasse uma foto dela. Contei a ele que, quando minha mãe morreu, ao cabo de 40 dias de sofrimento, ao lado da dor da perda devastadora senti também um certo alívio. Alívio que me deixou na época com uma culpa tremenda. Alívio  que mais tarde compreendi  e elaborei  nas terapias da vida. O alívio de ver aquela pessoa que tanto amamos parar, enfim, de sofrer.  Na nossa conversa, alertei-o sobre isso, já adiantando que não estranhasse a culpa e sobretudo não se deixasse abater por ela.
A essa altura, segundo relato dele, Scarlet vivia num vaivém entre CTI do Samaritano e sua casa no Jardim Botânico, o Chris e as meninas já preparados para o golpe final. Fiz minha homenagem e, talvez inconscientemente, o texto que escolhi para a reportagem foi o belíssimo poema de Carlos Drummond de Andrade “Para sempre”, que começa perguntando “Por que Deus permite que as mães vão-se embora?”
Saí do velório há pouco. Os meninos estão tristes, mas inteiros. Scarlet pode ir em paz, tudo vai dar certo. Ela deu conta muito bem da tarefa de ser mãe.
***
Ela, aliás, dava conta muito bem de todas as tarefas a que se propunha. Com aquela sua intensidade tão típica, a fala rouca, os cabelos mais ou menos vermelhos, foi jornalista,  escritora, atriz, produtora, empresária, o escambau.
Acho estranho ler hoje,  nas manchetes  de seu falecimento,  que ela foi a ex-mulher de Lulu Santos. Há uma inversão aí: Lulu Santos é que é o ex-marido da Scarlet. Assino embaixo e dou fé. Apenas uma questão de justiça.
Corria o final da década de 70, ali por volta de 1978, 1979, quando Scarlet apareceu no  “Globo”, onde eu trabalhava com Carlos Leonam e Fernando Zerlottini, os editores da coluna Carlos Swann. Era um espaço disputado, poderosíssimo, onde os pedidos pipocavam aos montes. Naquele tempo, assessor de imprensa era coisa para grandes empresas, grandes gravadoras. Não era como hoje que candidato a BBB já tem o seu e ainda nem sabe se vai entrar na malfadada Casa. Pois bem: Scarlet chegou para nos levar um disco de 45 rpm ( capa da Bíblia, gente!) de um  tal Luiz Maurício, um cantor que ela botava nas alturas, o máximo, um cara incrível, super, tudo de bom. Quando  saiu da sala, caímos todos na gargalhada. Só podia ter pirado de vez a Scarlet, imagina se alguém ia se dar ao trabalho de ouvir aquele disquinho de um desconhecido de cara maquiada, em que pese o carinho e o respeito que tínhamos pela nossa amiga. Tempos depois, surgia o Lulu Santos, o tal Luiz Maurício da Scarlet. Que ela desenhou, esculpiu e arrematou com muito amor, muito afinco, muita dedicação. É claro que o talento musical é dele. Mas quanta gente de talento ficou pelo caminho porque não teve a graça de ter uma Scarlet? Scarlet não é pra qualquer um, não. E é bom que isso fique bem claro.
***
Minha querida amiga, infelizmente sua jornada chegou ao fim por aqui. Muito cedo. Sua despedida, queria que você visse, é digna da star que você já é – trend topic nas redes, manchete dos sites, matéria nos telejornais. Só dá Scarlet. Nada mais justo. A eternidade tem agora a Scarlet O’Hara, que o vento levou, e a Scarlet Moon de Chevalier, cuja estrela vai brilhar ao lado da lua que ilumina o seu nome.
Céu poderoso esse.  Ilumina a gente, tá?

Anna Ramalho é colunista do Jornal do Brasil, criadora e editora do sitewww.annaramalho.com.br e cronista sempre que pode.
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