sábado, 29 de junho de 2013

Anos Rebeldes, Parte 2. Um exercício de ficção

CRÔNICA DA SEMANA

Anos Rebeldes, Parte 2. Um exercício de ficção


por Anna Ramalho
anna-ramalho-jornalista


Para Gilberto Braga, com carinho e admiração
Foi  pura coincidência, mas o final da reprise da minissérie “Anos Rebeldes”, de Gilberto Braga, passou-se paralelamente às manifestações que nos últimos dias botou a garotada na rua. A garotada e muitos participantes daqueles anos rebeldes – o pessoal hoje sessentão que formava a estudantada da época.  Nossa presidente, inclusive.
Gilberto Braga
Dia desses, saudando a chegada de Gilberto Braga ao Facebook, escrevi em sua página que quem, como ele, deu à luz “Anos Rebeldes”  e “Anos Dourados “ – obras-primas da televisão brasileira – não precisaria nunca mais escrever nada. Seu nome já estaria para sempre na história da televisão brasileira. Mas ele, ainda por cima, criou “Vale Tudo”,  a melhor telenovela de todos os tempos, em minha modesta opinião.
A reprise de “Anos Rebeldes”  fez tanto sucesso que o canal Viva, em feito inédito, reprisou o último capítulo na última segunda-feira, 24 de junho. É claro que a coincidência teve a ver com o momento que estamos vivendo, com este show diário de cidadania que o povo vem dando, desmoralizando políticos oportunistas e acuando a presidente em inédito e inesperado cenário.
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Penso na minissérie e em seus personagens. Imaginação à solta, brinco de Gilberto Braga.  Faço a minha ficção. O que estariam eles  fazendo hoje?  Uma delas nada poderia fazer:   Heloísa – a personagem que começa patricinha rica e termina militante de esquerda assassinada pela repressão, vivida com a competência de sempre por Claudia Abreu. Esta foi vítima da Revolução e de seus sinistros desdobramentos. Ela e tantos outros da vida real. Seu pai, o banqueiro Fábio Brito,  que financiou a Redentora ( José Wilker), é claro que está vivo. Velho, mas vivo. Riquíssimo ainda e financiando todo aquele que se apresenta como candidato, à direita ou à esquerda, porque nunca se sabe pra que lado o vento vai soprar. Com mais de 80 anos, casou-se pela terceira vez com uma ex-participante do BBB, loura e gostosa, com quem desfila pelo que ainda resta de vida social no Rio de Janeiro.
Sua ex-mulher, a elegantésima  Natália ( Betty Lago), foi para Paris e de lá para os Estados Unidos, acompanhando o professor  de História do Brasil por quem se apaixonou. Depois da temporada em Harvard como professor visitante, Inácio (Kadu Moliterno)  volta ao Brasil com a abertura e vira ministro da Cultura no governo de seu ex-aluno, Marcelo(Rubens Caribé), um sobrevivente da luta armada e companheiro da finadaHeloisa.  Ainda nos Estados Unidos e trabalhando como bibliotecária, Natália criou uma grife de moda praia. Foi o maior sucesso: hoje tem lojas espalhadas pelo Brasil, Estados Unidos e Europa.  Continua casada e feliz com Inácio, mas sem filhos. Marcelo faz um governo decente, é reeleito, mas acaba se desgastando nas brigas partidárias e opta por se afastar da política.  Casou-se com uma socióloga respeitada e foi feliz até a morte da mulher, em 2000.  Vive hoje como articulista e escritor, é imortal da ABL,  e está sempre no chá das quintas-feiras na Casa de Machado de Assis.
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João Alfredo (Cassio Gabus Mendes), sempre um idealista, migrou para o Partido Verde, continua na luta, mas jamais conseguiu se eleger para qualquer cargo acima de deputado federal. Foi rejeitado nas urnas para prefeito e governador do Rio de Janeiro, apesar do apoio maciço da intelectualidade e da Zona Sul do município. Seu eterno amor, a belaMaria Lúcia (Malu Mader), depois de idas e vindas, dois casamentos, e três filhos, rende-se ao sistema e vira marqueteira. Do DEM. Esquerda, nem pensar. O filho mais moço, 25 anos, parece a reencarnação do ex-namorado e vive na internet convocando a militância para a causa da hora. Como nos tempos de adolescência, ela vive em pânico, temendo pela integridade física do garoto.
Edgar ( Marcelo Serrado), ex-marido de Maria Lúcia, volta a ser o maior amigo de João Alfredo. Ambos casaram-se novamente. Edgar, com uma redatora que empregou em sua respeitada e bem sucedida editora; João, com uma militante verde, cheia dos ideais, e  parecida fisicamente com a Marina Silva. Eventualmente, ainda sonha com a Maria Lúcia, que jamais tornou a ver desde o rompimento.
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Depois de estourar como autor de novelas que param o Brasil, Galeno (Pedro Cardoso) casa-se com um arquiteto, Mário Sérgio, muito antes de a causa gay virar assunto de debate. São felizes há 40 anos e andam ambos com uma gana louca do Marcos Feliciano – eles e o Brasil que pensa. Neste momento, inspirado por toda essa garotada bonita que está nas ruas,  Galeno estuda a possibilidade de escrever a continuação da minissérie. Lembra que “Anos Rebeldes” ajudou a botar Collor pra fora e sabe que tem em mãos matéria prima de primeiríssima qualidade.
O delator Valdir ( André Pimentel), como todo bom traíra, vai muito bem, obrigada. Tem uma holding que abriga empresas da área de petróleo e energia. Só não é feliz pessoalmente: está no final do quinto casamento e perdeu um dos dois filhos para as drogas. O que sobrou é vagabundo, não quer nada com a hora do Brasil. Dedica-se com afinco à maromba. Quando lê, é HQ na esteira da academia.
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Finalmente, a Sandra – a revolucionária-pentelho, militante full time, empedernida, a mais dedicada à causa, vivida por Deborah Evelyn.  Depois de assaltar e até matar em nome da causa, de passar o pão que o diabo amassou, filiou-se ao PDT de Leonel Brizola, seu ídolo. Casou, desquitou, tem uma filha e um neto.  Rompida totalmente com os antigos companheiros de militância, Sandra é a presidente do Brasil.
Deborah Evelyn: a Sandra de Anos Rebeldes
Rodeada de ministros, puxa-sacos, empregados amedrontados  por tudo quanto é lado,Sandra vive hoje, paradoxalmente,  dias de profunda solidão.   Do lado de fora do seu palácio de vidro, o povo vive intensamente  seus dias rebeldes versão 2013.  Como ela reivindicava ferozmente em 1968, os jovens e os velhos de agora exigem um Brasil decente, justo, digno, limpo.  E livre. Sempre livre.

Anna Ramalho é colunista do Jornal do Brasil, criadora e editora do sitewww.annaramalho.com.br e cronista sempre que pode.
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