sábado, 14 de setembro de 2013

ANNA RAMALHO: “Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste”. Pobre Bilac!

“Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste”. Pobre Bilac!


por Anna Ramalho
anna-ramalho-jornalista


Aprendi muito menina ainda aqueles famosos versos de Olavo Bilac: “Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste!/ Criança! Não verás nenhum país como este!”. Assim mesmo, com todas essas exclamações, que seguiam acompanhando a poesia de exaltação às belezas e riquezas do nosso Brasil, muito apropriadamente batizada de  “A Pátria”.
O nosso Príncipe dos Poetas descansa em paz desde 1918, informa o onisciente Google. Sorte dele. Foi poupado de presenciar fancarias as mais diversas, safadezas de fazer corar o Ronald Biggs, cambalachos e baixarias de toda a sorte e para todos os gostos.
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Capistrano de Abreu

Hoje – sexta-feira, 13 de setembro de 2013, data emblemática – o Brasil que pensa acordou numa ressaca moral digna do dia tão mal falado. A bem da verdade, a sexta 13, no seu significado de dia de azar, foi a quinta 12, quando ministros  da mais alta corte do país faltaram com o respeito devido aos cidadãos brasileiros. Não dá para amar com fé e orgulho a nossa terra, quando somos obrigados a conviver com juristas de notório saber, com fama de ilibadíssimas reputações, que praticamente voltaram atrás em matéria já decidida.  Muito estranho. É claro que vem alguém correndo dizer que não é bem assim, que quem não tem competência não se estabelece, e realmente não tenho todo aquele notório saber das excelências. Mas tenho vergonha na cara. Desde criancinha sei de cor os versos de Bilac e a Constuição promulgada por meu bisavô, o grande historiadorCapistrano de Abreu, que é um primor de concisão: “Artigo 1º Todo o brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara. Parágrafo único: revogam-se as disposições em contrário.”  Fez falta essa Constituição no notório saber de alguns daqueles ministros, como faz, infelizmente,  para a maioria dos políticos brasileiros.
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Fico indignada com certas coisas. As excelências ornamentadas pelas negras togas são incapazes de proferir uma frase clara, assim tipo Ivo viu a uva. Acreditam piamente que notório saber é falar empolado. Com isso, a matéria que já é complicada e cheia de nuances, fica mais enrolada ainda – lembrando, muitas vezes, o imortal Rolando Lero da Escolinha do Professor Raimundo, outro imortal do grande Chico Anysio ( por coincidência, Chico e meu bisavô Capistrano são da mesma Maranguape, interior do Ceará). Se nós, os eleitores mais esclarecidos, ficamos confusos, é de se imaginar que o povão boie no assunto – o que satisfaz plenamente a classe política. De Dona Dilma ao mais reles vereador, não pode haver notícia melhor. A nação de BilacCapistrano e todos nós, os  150 milhões de brasileiros, foi pilhada por uma gangue da pesada e, se tudo correr como parece que correrá, os acusados escaparão de qualquer tipo de constrangimento. Prisão? Nem pensar. Devolver o dinheiro? Kakakakakakakaka.
Assim vamos seguindo, ano que vem tem eleição, reeleição dada como certa, o Pibinho vem reagindo, o dólar tem que cair na marra, a gasolina não aumenta para não criar estresse em tempos de votos, Dona Dilma já pensa no próximo blaser vermelho para encontrar o Obama ( se esnobar o americano, usa com o Morales, sem problema) e o Brasil – aquele que a gente ama com fé e orgulho – que se dane.
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Ministro Marco Aurélio Mello

O ministro Marco Aurélio Mello, que honrou a toga que veste, falou em esperança “para os nossos bisnetos”. Tocou fundo na ferida. Houve um tempo em que pensei que meu filho veria dias melhores, tão logo a ditadura foi varrida e seus generais vestiram os pijamas listrados. Acreditava que, com liberdade e bons dirigentes, o Brasil encontraria seu destino. Ledo engano. Meu filho tem sua filha, minha Bela Antonia, 9 anos. Pelas contas do ministro, ainda não se ufanará de sua pátria como quis Bilac. Quem sabe seus filhos?  Como amo intensamente esta menininha, rezo para que assim seja. Lá no fundo, porém, bate a inquietação. Será que algum dia poderemos, como Bilac, dizer “ Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste/ Criança! Não verás país como este” ? Por enquanto a gente diz. Mas só pra debochar. Em matéria de vigarice, de patifaria, de malfeitos, realmente não há país como este. Tudo é tanto, tão às avessas, tão gauche, que chega a ser cansativo.
Bisnetos, já torcendo por vocês. Que o Brasil lhes seja leve!

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