quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O Motoqueiro Assassino e a Experiência de Quase Morte

O motoqueiro assassino e a experiência de quase morte


por Anna Ramalho
anna-ramalho-jornalista


Considero um milagre divino estar hoje  aqui à frente do computador para escrever minha crônica semanal. No último sábado, pude comprovar a sabedoria de velhos ditados: “Ninguém morre de véspera”,  “O futuro a Deus pertence” ou “Ninguém nunca sabe o dia de amanhã.” Por um triz, um nano segundo, escapei da morte – ou , toc toc toc, de uma invalidez permanente, que é bem pior do que morrer.
Foi assim: como faço sempre, saí para levar o Bubi, o amado cão, para seu passeio. Disciplinadamente atravessei com ele no sinal da Rua Jardim Botânico e passei para o outro lado da rua. Enquanto me encaminhava lentamente em direção à Ponte de Tábuas,  um motoqueiro ensandecido, que acabara de passar o sinal em frente ao Jardim Botânico, subiu a calçada, a toda velocidade, sem pensar em reduzir a marcha, apenas para depositar comodamente seu carona na porta do restaurante Filé de Ouro. Ao meu lado, tão vulnerável quanto um pino de boliche à espera do strike, um senhor de mais de 70 anos, que aguardava  o sinal fechar para atravessar a rua Jardim Botânico. Perplexos e assustadíssimos, tudo o que conseguimos foi gritar um “Mas o que é isso???”. O motoqueiro nem ouviu. Já tinha partido na mesma velocidade e na impunidade de sempre. Detalhe: nem ele nem o carona usavam capacete.  De tão assustada não tive tempo de gravar a placa do cidadão, que, logo concluí , só pode tratar-se de meliante. Seu estilo de dirigir era o de um motorista de execução – daqueles que a gente vê em filme de gangster. Vamos combinar que uma pessoa do bem não coloca em risco a vida de cidadãos inocentes. O sujeito é no mínimo um desajustado, mas tenho certeza de que se fosse levantar a vida dele, sairia com um prontuário policial nas mãos.
***
De volta pra casa, me pus a pensar. E se eu tivesse morrido ali? Não levava nada comigo, além do IPhone de última geração numa bolsinha de lona, onde carrego sacos plásticos para recolher a sujeira do Bubi, a bomba de asma e as chaves de casa. Portanto, se um dos porteiros do meu prédio não viesse conferir o último desastre, acho que ficaria que nem a música do João Bosco: “tá lá o corpo estendido no chão.” O Iphone, claro, seria imediatamente afanado pelo primeiro que viesse socorrer a indigitada.
Se eu tivesse morrido ali, iria fazer uma entrada de quinta no Paraíso: cabelo por pintar e cortar ( fui ao cabeleireiro mais tarde), modelito vou ali e volto já, zero de dinheiro na carteira, bolsa vagabunda, enfim, uma pobreza! Pensei: será que quando a gente chega lá em cima eles descolam um modelito único para ninguém sobressair? Deve ser. Isso seria realmente um paraíso. Era o que faltava subir aos céus naquele escracho  e encontrar aquelas deslumbradas todas de bolsa Prada, sapatos Loboutin, relógios Cartier, todas montadas e emperequetadas segundo os últimos ditames da moda – aqueles mesmos que elas todas levam tão a sério em suas vidas terrenas.
Se eu tivesse morrido ali, não ia poder comemorar o Dia dos Pais dos sem pai, como costumo fazer com meu querido Chicô, que é  órfão de pai como eu. E logo num domingo em que prometera pra ele fazer aquela moqueca de peixe que a gente ama tanto! Se eu tivesse morrido ali, não ia poder fazer uma das coisas que mais gosto: ir à feira, aqui no Jardim Botânico, onde os feirantes são meus amigos, para comprar o cherne fresquinho na mão do Ayrton, o melhor peixeiro do Rio.
Se eu tivesse morrido ali, não teria feito as viagens que ainda quero tanto fazer para lugares que quero tanto conhecer e tão disparatados entre si  quanto Maceió e Estocolmo. Florianópolis e Moscou. Bonito e Tel Aviv. Pirinópolis e Atenas. Fernando de Noronha e Budapeste.
Se eu tivesse morrido ali, não veria o Rio de Janeiro que me prometem a todo instante: metrô cortando a cidade, violência zero, postos de saúde atendendo a todos, um policial a cada esquina – não para matar, mas para botar ordem e ajudar. Para não permitir, entre outros malfeitos,  que um motoqueiro insano invada calçadas para matar inocentes que passeiam com seus cães. Já que não morri, será que ainda verei este Rio?
Se eu tivesse morrido ali, teria morrido muito triste, porque teria morrido sem ver pela última vez os queridos rostos da minha pequena família que amo tanto, enquanto carregaria para a eternidade a cara feia daquele motoqueiro bandido – uma cara que jamais esquecerei. Se eu tivesse morrido ali, voltaria todas as noites, que nem a Nicole da novela do Carrasco, para atormentar o motoqueiro assassino.  Não vinha de borboleta nem com aqueles lindos cabelos ruivos da Marina Ruy Barbosa, vinha mesmo em decomposição, bem na linha Hora do Espanto, para puxar a perna do irresponsável todos os dias da minha eternidade.
Se eu tivesse morrido ali... Não foi desta vez.  Deus é Pai!

Anna Ramalho é colunista do Jornal do Brasil, criadora e editora do sitewww.annaramalho.com.br e cronista sempre que pode.
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